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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Opinião E: Pulso ao estado da formação dos jovens na modalidade de futsal em Viana do Castelo*

O suporte e futuro de qualquer modalidade está na qualidade da formação desportiva dos seus intervenientes. Logo não se pode conceber a existência de uma modalidade se não se aposta na sua formação, se ela não existe se faz de conta que existe.


Por vezes proclama-se alto, a bom som e aos mil ventos que o número de equipas seniores a disputar os campeonatos têm aumentado ano após ano e depois esquece-se que a sustentação da mesma está na formação que … não existe.


Não concebo uma modalidade onde se observa que não há equipas de formação nos escalões femininos e que se realize um campeonato (se alguma vez se pode apelidar assim) de juniores masculinos com 5 equipas quando se sabe que é obrigatório que cada clube inscrito na Associação de Futebol de Viana do Castelo inscreva uma equipa de formação nos campeonatos.


É com bastante satisfação que observo que as modalidades de Atletismo, Natação, Voleibol, Futebol, Basquetebol, Andebol e Hóquei em Patins (e outras que me escapam agora) apresentam praticantes em todos os escalões de formação, muitas delas com escalões femininos e masculinos. Depois olha-se para o Futsal e é o marasmo, 5 equipas, somente escalão júnior masculino. Dos clubes existentes em Viana somente o CFNogueirense apresentou desde sempre escalão de formação e não é com regozijo que se declara eterno campeão de juniores. Essa falta de competitividade e de qualidade da formação repercute-se depois nos planteis das equipas seniores.


Temos o exemplo das duas equipas mais representativas até ao momento do Futsal em Viana do Castelo, Clube Futebol Nogueirense e Santa Luzia FC. Nesta ultima, grande parte dos seus praticantes pertencem a uma outra associação, apresentam no entanto resultados desportivos que se podem considerar globalmente positivos, não ostentando qualquer equipa de formação neste momento


O CF Nogueirense apresenta 95% dos jogadores da equipa sénior formados no clube e tendo os resultados desportivos sobejamente reconhecidos. Mas neste momento se quer ser muito mais competitivo não tem outra saída que não seja contratar jogadores fora do distrito com os custos daí decorrentes, porque eles não existem em Viana do Castelo (falamos de jogadores que entrem no clube e sejam imediatamente mais valias para uma segunda divisão).


Então, com este panorama, acho urgente adoptar politicas de formação no nosso distrito. Os ganhos não serão imediatos bem sei, mas a modalidade em 4-5 anos com toda a certeza se desenvolverá muito mais do que actualmente.


Defendo vivamente a obrigatoriedade de todas as equipas inscritas nos campeonatos seniores na época 2010-2011 (nesta já é impossível) apresentarem uma equipa de Juvenis, sem qualquer pagamento das respectivas inscrições na associação. Em 2012-2013 todos os clubes teriam de ter uma equipa de Juvenis e de Juniores. São muitos custos? Não há árbitros para tantos jogos? Com organização e principalmente com vontade que o Futsal em Viana do Castelo se desenvolva consegue-se superar essas e outras dificuldades.


É possível, claro que é possível. A modalidade de Futsal não pode é ser considerada o parente pobre do Futebol. Tem de voar sozinha… mas com um rumo, com gente competente, com organização e claro com existência de formação.


* Nuno Esperança


Mestre em Ciências do Desporto e Educação Física pela FCDEF


Professor de Educação Física no agrupamento de Escolas Arga e Lima


Escreve neste espaço quinzenalmente




opinião anterior: Errem muito…

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Opinião E: Errem muito…*

Com uma acuidade gritante se observam adultos, indivíduos com formação académica e pais a manifestarem verbalmente nos jogos de formação a sua intolerância pelo erro, acto tão normal e natural quanto mais não seja por ser realizado por crianças.


Critico, condeno até que se inibam as crianças de fazer, de tentar, de agir, mesmo que esse gesto represente um erro. Entendo que é preferível fazer mesmo que mal do que não fazer com receio de ser repreendido por tal. Bem sei que se não se tentar fazer não se erra, mas também nada se aprende, nada se melhora, somente o medo de errar se desenvolve e consequentemente a diminuição da sua auto-estima e confiança.


Qual o objectivo dos jogos desportivos colectivos? O golo, o cesto ou o ponto. Então deve-se encorajar as crianças a tal, mesmo sabendo de antemão que a percentagem de êxito será muito reduzida. Mas o pouco que façam deve ser sempre elogiado, corrigido pela positiva, alimentado o desejo de sucesso e o desejo de voltar a tentar.


Sem querer cair na tentação de ser irrealista na forma de observar o processo de formação das crianças e jovens, diria que seria tão bom que as crianças errassem, errassem o máximo que pudessem, errassem tanto ou mais do que aquilo que deveriam brincar no dia a dia e não o façam por falta de tempo ou oportunidade, que os deixassem ser crianças no seu processo de formação desportiva.


As “minhas crianças” sabem que podem errar, não sentem receios, pois sabem que o grito, a reprimenda ou até o castigo nunca será o “prato do dia”.


Por isso pais, técnicos e professores, tenham paciência, sensibilidade, sejam positivos, encorajem os jovens, não valorizem o erro. Tenham calma, um jogo é só um jogo, não está mais nada em cima da mesa do que somente mais um momento de aprendizagem para os jovens.


Num outro artigo de opinião falarei de algo intimamente relacionado com isto que são os jogadores robots, telecomandados à distância quer por pais quer por técnicos, fazendo que estes não ajam mas sim reajam à informação que venha de fora.


Para terminar, para mim os meus pequenotes atletas serão sempre os melhores, farão sempre bem, até que chegue o momento em que estes compreendam o que é errar e valha a pena (se é que vale algum dia a pena) retirar da sua face, apesar de por instantes, aquele sorriso contagiante do êxito e da alegria de fazer.


* Nuno Esperança


Mestre em Ciências do Desporto e Educação Física pela F.C.D.E.F.


Professor de Educação Física no agrupamento de Escolas Arga e Lima


Escreve neste espaço quinzenalmente





opinião anterior: Opinião E: Alfabetização Motora versus Especialização Precoce

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Opinião E: Alfabetização Motora versus Especialização Precoce*

Parece haver consenso relativamente aos benefícios da prática de actividade física e do seu início em idades mais precoces. O que me parece que não tem sido muito tema de discussão e principalmente de preocupação por parte de muitos profissionais da área e também de muitos pais, é do tipo de actividade desportiva que se deve proporcionar às crianças. Aí vem ao de cima o termo “especialização precoce”.


Ávidos de novos Cristianos Ronaldos das diferentes modalidades, parece-me que a maioria dos responsáveis dos clubes existentes em Viana do Castelo e infelizmente da maioria do país defendem a prática o mais precoce possível de uma só modalidade, repetindo um modelo de gesto técnico, uma matriz de movimento corporal na tentativa e na esperança que isso possa potenciar o mais precocemente possível as suas capacidades e assim antecipar campeões.


Constatamos assim que na cidade de Viana do Castelo, com a excepção da “Academia Total” não existe uma escola ou clube que tenha como pano de fundo da sua intervenção, valências tão importantes como igualdade, formação desportiva global e corporalidade, num processo de formação pessoal e desportivo que se deseja harmonioso, equilibrado e saudável.


A grande parte dos clubes tem como preocupação principal o aspecto competitivo, levando muitas vezes, directa ou indirectamente, à existência de traumas, medos e a abandonos precoces das crianças da prática desportiva. Muitas das vezes são os treinadores que com a ânsia de querer ganhar, esquecem-se que estão a lidar com crianças, as quais sentem imenso as suas opções ditas técnico-tácticas, opiniões e decisões. Encontramos também clubes autenticamente selectivos, onde uma criança de 6-8 anos é rejeitada para a modalidade por não ter as “ditas” qualidades necessárias e suficientes. O objectivo é ser “campeão do mundo” em escolas e infantis e não há, como tal, lugar para todas as crianças.


O que defendo então? Defendo o termo “alfabetização motora”. Devemos proporcionar às crianças o contacto e a prática de varias modalidades desportivas, sem cariz competitivo, onde as mesmas possam errar o mais possível (nada pior que preferir não fazer com medo de ser repreendido, a fazer mesmo errando), onde se possam divertir e crescer de forma equilibrada.


Mais tarde, e após esse processo inicial da sua formação desportiva, quando o jovem desejar iniciar a sua actividade desportiva mais de cariz competitivo (quase sempre inicia-se com a entrada no 2º ciclo de escolaridade), poderá escolher com segurança e tranquilidade aquela que lhe proporcionará mais êxitos e maior realização pessoal.


A verdade é que cada vez mais, nas escolas onde lecciono, os alunos tem um nível de alfabetização motora menor.


Estarei errado?


* Nuno Esperança


Mestre em Ciências do Desporto e Educação Física pela F.C.D.E.F.


Professor de Educação Física no agrupamento de Escolas Arga e Lima


Escreve neste espaço quinzenalmente