Mostrar mensagens com a etiqueta Bruno Oliveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bruno Oliveira. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Opinião: Ser treinador

A generalidade das pessoas tende a pensar que ser treinador é uma tarefa que está ao alcance de qualquer um. Na verdade, elas não estão assim tão enganadas. Treinar uma equipa de basquetebol, futebol, voleibol ou de hóquei em patins não é assim tão complicado. A grande dificuldade está em desempenhar essa função de forma eficaz. Os problemas começam a surgir precisamente neste ponto. Afinal de contas, quando falamos em eficácia, estamos realmente a falar do quê?!


Para alguns, ser eficaz é ganhar a qualquer custo. Para outros, eficácia é jogar bem. Há ainda aqueles que consideram que a eficácia está na capacidade de educar e formar para o futuro sem dar grande importância à competição. Será que algum destes conceitos está correcto? A resposta mais óbvia é dizer que um bom treinador tem que procurar ser eficiente nos três conceitos. Claro que sim. Mas sejamos sinceros, já alguém viu uma equipa a ganhar, a jogar bonito e sem atletas com tiques de vedeta? A realidade é que ninguém consegue cumprir os três objectivos de forma absoluta, até porque eles são de certo modo incompatíveis.


Sendo assim, tendo em conta este trade-off, não resta outra solução a um treinador que não seja seguir uma filosofia. Não há filosofias certas nem erradas. Cada um tem a sua, e deve gerir as respectivas equipas em função daquilo em que acredita. Se assim o fizer, estará certamente empenhado na sua função e motivado para transmitir os seus conhecimentos. No entanto, estou convicto que dentro de cada estilo de liderança há filosofias mais adequadas do que outras. Formação é uma coisa, competição de alto-nível é outra totalmente diferente. Daí que no meu entender, um bom treinador de formação dificilmente será um líder de excelência a nível da alta competição e vice-versa. Precisamente porque existe uma grande diferença de mentalidade que não pode ser alterada com um simples clique. Não é possível ser extremamente competitivo e olhar apenas para os resultados hoje, e amanhã ser rigoroso na pedagogia e olhar exclusivamente para as componentes formativas. Os treinadores não mudam a sua filosofia conforme o cargo que ocupam, podem ajustá-la, mas a sua verdadeira forma de entender o desporto acabará sempre por vir ao de cima.


Gerir um grupo de jovens não é fácil. Eles não têm contas para pagar nem objectivos contratuais a cumprir, mas têm borbulhas na cara, hormonas a fervilhar e sonhos para concretizar. A amizade, o carinho, o afecto são a chave para o sucesso de um bom líder. Aqueles que pensam que é possível separar a componente desportiva da componente humana estão redondamente enganados. O desporto é uma actividade social. Não é possível separar o João que tirou negativa a matemática do João que joga basquetebol. Não é possível separar a Joana que teve um arrufo com o namorado, da Joana que lança ao cesto... Por isso é que o envolvimento na vida dos atletas é tão importante. Muitas vezes, a resposta para um rendimento menos positivo está mesmo debaixo do nosso nariz e pode ser resolvido com uma conversa, ou, quem sabe, com um pequeno conselho.


Seja qual for a filosofia adoptada, seja qual for o estilo de liderança escolhido, o essencial da questão parece-me estar bem resumido numa célebre expressão de Albert Einstein:


"Lembra-te sempre que o caminho que trilhares para o sucesso é mais importante que qualquer outra coisa".


Bruno de Oliveira


- treinador de basquetebol -


originalmente publicado aqui

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Opinião: É útil praticar desporto?

O envolvimento dos jovens com uma modalidade é generalizadamente mais emotiva do que aquilo que as pessoas pensam. Praticar desporto e pertencer a uma equipa, é um sentimento único que deve ser valorizado e preservado. Além dos inúmeros benefícios para a saúde, praticar uma modalidade colectiva desenvolve uma série de competências nos jovens. Atributos como o trabalho em equipa e a capacidade de decidir sobre pressão são factores que, inevitavelmente, serão requeridos no seu futuro pessoal e profissional. Numa sociedade cada vez mais individualizada e materialista, os jovens acabam muitas vezes por ver nas colectividades desportivas uma forma de descomprimir e deixar para trás toda aquela pressão que hoje em dia é colocada nos seus ombros. O sucesso do desporto prende-se com as emoções e as paixões que desperta. Muitos fazem-no enquanto ganham milhões, mas a maior parte não precisa de motivações tão fortes, a paixão pelo jogo e o prazer que se retira da sua prática chega perfeitamente.


Já há alguns anos, recebi um e-mail com uma série de perguntas retóricas que descrevia na perfeição o que é o basquetebol. Não sei o nome do seu autor, até porque se trata de uma daquelas correntes que se propagou à velocidade da luz por todo o mundo, mas achei-a tão interessante que não resisti a partilhá-la com os amigos leitores.


O QUE É O BASQUETEBOL?!

Como explicar-te o que é amor se nunca vestiste a camisola da tua equipa?

Como explicar-te o que é prazer se nunca ganhaste um "clássico"?

Como explicar-te o que é a dor se nunca perdeste um jogo no último segundo?

Como explicar-te o que é carinho se nunca sentiste a bola com a ponta dos dedos?

Como explicar-te o que é solidariedade se nunca deste uma ajuda numa defesa individual?

Como explicar-te o que é poesia se nunca deixaste os teus adversários desorientados com um "crossover"?

Como explicar-te o que é amizade se nunca fizeste uma assistência?

Como explicar-te o que é pânico se nunca perdeste um jogo depois de estar a ganhar por 20 pontos?

Como explicar-te o que é morrer um bocado se nunca perdeste uma final?

Como explicar-te o que é esforço se nunca deste o máximo para recuperar uma bola?

Como explicar-te o que é egoísmo se nunca lançaste quando devias ter passado a um colega melhor posicionado?

Como explicar-te o que é arte se nunca inventaste uma assistência espectacular?

Como explicar-te o que é música se nunca cantaste para incentivar os teus companheiros?

Como explicar-te o que é o ódio se nunca perdeste a bola que resolveu o jogo?

Como explicar-te o que é a vida se nunca jogaste basquetebol?!

Bruno de Oliveira


treinador de basquetebol


originalmente publicado aqui

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A importância da família no desporto - Bruno de Oliveira

Em todos os aspectos da educação dos jovens, o acompanhamento familiar é indispensável para o desenvolvimento máximo das suas capacidades. Sentir o apoio dos encarregados de educação, em tudo o que se faz, é sem dúvida essencial para o sucesso ao longo de uma vida desportiva ou académica. Alguns pais tendem a desvalorizar a utilidade do desporto na vida dos filhos, outros tendem a sobrevalorizar a sua importância. Tanto num caso como no outro, estamos perante situações que apenas contribuem para a desilusão e infelicidade dos jovens, algo que está muito longe de ser o sentimento pretendido com a prática desportiva.


Incentivar o treino, bem como partilhar vitórias e derrotas dos mais novos, são funções que os encarregados de educação não devem desprezar. O sentimento de pertencer a uma equipa é muito mais forte do que se pensa, e privar um jovem de estar com os seus companheiros pode muito bem ser uma punição demasiado dura para quem pratica determinada modalidade. Castigar uma criança proibindo-a de ir a um jogo, ou aconselhá-la a faltar a um treino para estudar, são erros muito comuns cometidos pelos encarregados de educação. Não é com certeza por praticar determinada modalidade, por treinar 3, 4 ou cinco vezes por semana que o rendimento escolar vai baixar. Eu próprio pratiquei basquetebol, treinava 5 vezes por semana, jogava ao sábado e ao domingo, era treinador ao mesmo tempo, e não foi por isso que deixei de frequentar o ensino superior. Tal como eu, todos os meus companheiros de equipa seguiram uma vida académica, e estão agora espalhados por algumas das melhores Universidades do país.


Quando tento explicar esta falta de correlação entre prática desportiva e insucesso escolar, conto sempre a história do Jorge, um companheiro de equipa que durante muitos anos partilhou o mesmo emblema que eu. No nosso grupo, o Jorge era dos jogadores mais importantes. Ele não tinha percentagens incríveis da linha de 3 pontos, nem sequer dominava a bola como se fizesse parte do seu corpo. Não era extraordinariamente rápido nem defendia ao ponto de causar o pânico nos adversários. Em bom da verdade, o Jorge nem sequer tinha muito jeito para o basket e quando os jogos eram mais disputados, por vezes nem chegava a entrar. O que tinha então ele de especial?! O nosso amigo Jorge raramente faltava a um treino, nunca falhava um jogo, era o primeiro a alinhar em convívios e jantares de equipa, e não foi por isso que deixou de entrar no curso que sempre desejou: medicina. Ora se o Jorge conseguiu conciliar tudo e entrar num curso que exige notas extremamente altas, porque raio os outros não hão de conseguir?! Será este um caso único? Obviamente que não, até porque para espanto de muitos encarregados de educação, existe de facto uma correlação entre prática desportiva e sucesso escolar, mas ela é positiva, e não negativa como muitos gostam de presumir.


No lado oposto da barricada, estão os país que tendem a fazer do desporto o assunto mais importante do mundo, acabando por pressionar em demasia os jovens atletas, tirando-lhes a motivação essencial de quem faz exercício físico: a diversão. Ver adultos aos berros na bancada com árbitros, treinadores, ou os próprios miúdos, é um espectáculo pouco digno que faz corar de vergonha todos os presentes que tenham o mínimo de lucidez mental. Passar a ideia de que ganhar é o mais importante, é outro erro comum nos encarregados de educação, embora neste assunto, os treinadores e dirigentes tenham também a sua quota de responsabilidade. Afinal de contas, se perguntarmos aos nossos atletas porque é que praticam desporto, quantos deles vão responder que é para ganhar campeonatos?! Garanto que se fizerem o teste, a conclusão vai ser surpreendente.


Bruno de Oliveira


treinador de basquetebol


originalmente publicado aqui

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Opinião: Validade dos modelos competitivos - o caso do basquetebol

Começou no último fim de semana a época (ndr: texto originalmente publicado a 11 de outubro) para as equipas femininas da Escola Desportiva de Viana, e apesar de estarmos ainda no início da temporada, não é preciso esperar mais para poder concluir que os clubes da nossa associação que irão participar nas provas nacionais vão ter uma tarefa muito complicada. O problema não está na qualidade dos treinadores ou na falta de empenho das atletas, mas sim num modelo de competição associativa totalmente falido em que a quantidade de equipas é claramente insuficiente para que se atinjam os parâmetros qualitativos das principais associações de basquetebol do país.


Este ano, à semelhança do que tem acontecido em épocas anteriores, existem três equipas a competir no escalão de iniciadas (sub-14), três formações de cadetes (sub-16) e duas de júniores (sub-19). Isto significa que, quando as equipas de Viana chegarem às competições nacionais, realizaram meia dúzia de jogos, quase um terço dos desafios disputados pelas formações do Porto (dezoito equipas de iniciadas, dezanove de cadetes e quinze de júniores). Além disso, convém relembrar que o equilíbrio é uma permanente em jogos de outras associações, algo que no nosso distrito não passa de uma miragem já que o título é quase sempre discutido entre duas únicas equipas. Feitos maiores em competições nacionais como os que têm acontecido a espaços, são fruto exclusivo de atletas fantásticas e incansáveis, que poderiam chegar muito mais longe se o modelo adoptado fosse outro.

Perante este situação, não se pode esperar que o basquetebol feminino vianense evolua ao ritmo do verificado noutras zonas do país. Se olharmos para Braga, onde o feminino tem sido uma grande aposta, concluímos que estamos a ficar para trás numa corrida em que estivemos ombro a ombro durante vários anos. Os nossos vizinhos fizeram uma aposta e começam agora a recolher os frutos da sua decisão. Cada vez há mais equipas, e graças a uma competição interna numerosa, o seu futuro é mais risonho em termos de qualidade e quantidade.

Num distrito onde há duas únicas equipas a apostar no feminino (EDV e EDL), está na altura de cruzarmos fronteiras, deixarmos oportunismos e orgulhos de lado, e juntarmos as duas associações numa competição única e verdadeiramente enriquecedora. Nós ficamos claramente a ganhar porque passamos a ter uma verdadeira preparação para os desafios que se seguem, e eles não ficam a perder porque o potencial da prova aumenta qualitativamente. A EDV tem manifestado várias vezes a intenção de se juntar a associações fortes sempre que a prova interna não tem qualidade suficiente, infelizmente, a associação continua a optar por soluções totalmente insuficientes como a criação de equipas à pressa que nada vêm acrescentar a quem realmente trabalha. Mais do que uma falta de consideração por quem leva a formação a sério, revela uma incapacidade frustrante de decidir um rumo e optar por um projecto a longo prazo que nos leve ao lugar que o nosso esforço merece.

Bruno de Oliveira


treinador de basquetebol


originalmente publicada aqui